Quem dentre vós sois a mais forte? – teatro

O ateliê dessa semana traz uma das mais antigas alquimias: o teatro! E o tema da peça tem muito a ver com as mulheres que transitam por esse blog…

A peça A mais forte?, que estréia NESTE SÁBADO, no teatro ECO Espaço Cultural é idealizada e realizada por 03 mulheres, sendo duas atrizes e uma diretora. O texto é de August Strindberg, adaptado pelas próprias meninas: as atrizes Taciana Lacerda e Mariana Molina, com direção de Julia Piccolomini.

A peça é resultado de um projeto de carinho, do tipo dos que saem os melhores trabalhos porque feitos com intimidade e intensidade. Assim foi gestada “A mais forte?.

A peça é palco para o duelo entre duas personagens, também mulheres, e amantes de um mesmo homem. O que nos toca na peça não é o julgamento em si de quem seja a mais forte, mas a própria pergunta. É a pergunta que nos move, que inquieta as nossas personagens pessoais e internas, porque nós somos muitas em uma só.

A peça mais do que estimular opiniões fortes sobre a questão do que é ser mulher, ou mesmo do que é ser uma mulher forte, ela toca fundo por nos surpreender com uma pergunta e não com respostas.

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Quando? De 28/07 a 19/08 – sábados 21h, domingos 19h.

(dia 11/08 não haverá espetáculo)

Quanto? R$20,00

Onde: ECO Espaço Cultural. Rua Alfredo Pujol, 381 – Santana. São Paulo/SP 

Elenco: Mariana Molina e Taciana Lacerda. Direção: Julia Piccolomini. Produção: Jandilson Vieira. Arte: Vinicius Muniz

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.Fotografia e arte Vinicius Muniz.

As atrizes Mariana Molina e Taci Lacerda sentaram com a gente e trocaram algumas impressões. A conversa, você confere a seguir:

De onde veio a idéia de montar a peça? Foi a partir da companhia de teatro de vocês, a Cia Descabeladas?

TL – Começou em novembro do ano passado. Nós nos juntamos, na verdade, por causa do texto mesmo. Eu e a Mollys (Mariana Molina) estávamos no ônibus, indo a uma aula, e ela me disse que estava relendo algumas coisas da época da faculdade. Daí, ela mencionou “a mais forte”. No texto, as personagens são duas atrizes e quando nós vimos, tínhamos duas atrizes e a diretora, que é a Julia.

MM – É bem isso, nós somos as criadoras da Cia, junto com a Julia que é a diretora dessa peça. Nos juntamos por causa do texto, mas também por sentirmos falta de um fazer teatral que nos identificasse. Aos poucos, outras pessoas foram se envolvendo com o grupo, abraçando a idéia…

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Vocês têm uma relação de espelho com a personagem? Vocês se vêem na personagem? Como se dá esse desapego de si para “entrar” na personagem? 

MM – Eu faço a amante e ela faz a esposa… Eu já fui amante e a Taci já foi um pouco esposa… Mas, a escolha das personagens veio da diretora, que não quis em nenhum momento definir assim pelas experiências pessoais minha e da Taci. Mas sim, há uma identificação, tanto é que tem um depoimento nosso na peça relatando esses fatos amante-mulherzinha de nossas vidas. Mas eu sou eu e a personagem é a personagem. Eu diria que eu as vejo como mulheres mais velhas até, e bem sucedidas no teatro. Acho que a identidade passa mais pela genialidade do texto, por ele ser curto, intenso, expositor… E ele traz uma reflexão sobre as nossas escolhas na vida, nossas decisões e tal.

TL – É bem isso, é um texto curto, mas profundo… São duas mulheres fortes, que têm uma fraqueza: o Bob e a competição entre elas. Acho que o que nos toca são as questões que o texto move, a gente acaba se perguntando o que é ser mulher e o que é ser forte nos dias de hoje, conscientes de que ao mesmo tempo temos a fragilidade de querer alguém que nos cuide.

.Fotografia e arte Vinicius Muniz.

Como é trazer um texto de 1888 para falar sobre o que é ser mulher e forte nos dias de hoje? Afinal, tanto o conceito do ser mulher, quanto o de ser forte mudou de 1888 para cá, mas algo permanece, é isso?

MM – O que eu mais aprendi nesse texto é que ser uma mulher forte é ter amor próprio… e isso é algo para o ser humano… é um texto que tem como pano de fundo duas mulheres, mas quando se fala de amor próprio… o gênero se perde e fica o humano, em qualquer circunstância. O texto deixa claro quem é a mais forte, porém as pessoas hoje em dia, olhando para esse texto, acabam questionando o autor. Elas dizem: “pera aí…não é bem assim que a banda toca”. Na época em que o texto foi escrito, a definição de quem é a mais forte era super cabível, mas hoje em dia isso muda.

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Mas, o que o texto indica que não possa mais ser aplicado hoje? Como vocês trabalharam esse “dilema” de épocas distintas?

TL – Porque na época do texto, uma mulher se anular para manter o casamento era sinal de força. Já hoje em dia, uma mulher que se anula pra sustentar o casamento é vista como fraca. E é mesmo.

MM – Porque a mulher hoje em dia tem a tal da independência… Se der a louca, a mulher alfa dos tempos atuais larga tudo casa, filhos, casamento e sai como vitoriosa. Antigamente, o divórcio era o terror para a mulher.

TL – O “dilema” nós trabalhamos justamente com a interrogação no título. No original, o título é “a mais forte”, já o nosso é “a mais forte?”. Começa aí e disso transporta para o nosso corpo e é essa pergunta que o público vai responder.

MM – É como se o público atual colocasse esse ponto de interrogação na peça, porque a intenção não é fazer o público concordar com o autor, mas se questionar: e o que é ser mulher e ser forte nos dias de hoje?

.Fotografia Vinicius Muniz.

Foram 09 meses de ensaio. Tem algo de cabalístico nesse tempo? Nesses exatos 9 meses? Como foi essa gestação de vocês. Acho que a pergunta é: o que são 9 meses de ensaio?

MM – Eu disse pra Julia outro dia: “fomos presentadas todo o tempo”. A gente teve poucas crises e/ou dificuldades com o processo. Era sempre muita entrega e muito trabalho. Ensaiávamos todo domingo na casa da Julia, às vezes na minha casa…

TL – O tempo mostrou que já tínhamos uma sintonia. Passamos mais tempo aprofundando o que já conhecíamos do que buscando conhecer superfícies

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Ansiedade pela estréia? O frio na barriga vem? O frio na barriga já está aí?

TL – O frio na barriga está aqui desde a semana passada. Ele existe sim! Aliás, acho que é uma das partes mais legais. Essa adrenalina típica de quem faz esportes de alto risco.

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Meninas, uma última pergunta, só pra não dizerem que não falamos das flores: Como está o teatro em São Paulo, heim? Patrocínio, público, casa cheia? Vocês sentem o teatro vivo em São Paulo?

TL – Está meio zumbi o teatro em São Paulo. Mas acho que está caminhando para formação de público, mas meio morto, meio vivo. Têm alguns projetos que o governo apóia, outros que uma mídia fechada apóia, mas ainda falta muito para ser o ideal, sabe?

MM – É complicado… a gente disputa com o lanche do mac donalds

TL – Exato, é bem isso, o povo prefere gastar R$30,00 no mac do que ir a uma boa peça.

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Orgulho e prazer em fazer teatro, mesmo nesse cenário zumbi?

TL – Prazer em fazer teatro. Orgulho por conseguir pôr uma peça em cartaz sem ser filha de político ou artista da globo. Eu me orgulho de todos que conseguem pôr uma peça em cartaz sem esses requisitos citados.

.Fotografia Fernanda Moraes Ajure; Arte de Vinicius Muniz.

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!Palavra de Melinda!